ÉPOCA DA DISCOTECA

 

 

discoteca é o fenômeno musical destes anos, sem dúvida alguma.

Ela trouxe consigo novos hábitos de comportamento, de consumo, ditou suas regras, mudou muito do que parecia estabelecido como definitivo na indústria da música, que chegava a um ponto um tanto crítico em relação a o que apresentar. Não havia nenhuma corrente definida. Com a discoteca, praticamente desapareceram os grandes nomes, os casts milionários. A rotatividade é muito grande para permitir que se estabeleça uma relação qualquer entre o público e os músicos, mesmo porque normalmente tem-se muito pouco a dizer com o intuito de se criar uma imagem que possa favorecer o artista junto a uma determinada faixa de consumidor. Em discoteca o fundamental é que se faça as pessoas dançarem, o resto, de fato, pouco importa.

Em termos de criação musical, não se pode dizer que este período de domínio do som discoteca seja lá dos mais férteis. O gênero, por si, requer uma certa simplicidade, nada de sequências musicais que não agradem logo na primeira ouvida ou que precisem ser entendidas. A função única e exclusiva da música é a de dançar, ou melhor, de facilitar a dança para todos, já que seu próprio balanço não requer grande habilidade corporal como no rock, por exempio, que exige e possibilita uma expressão corporal maior.

Em nome da eficiência, praticamente desapareceram as letras, substituídas por refrões que se repetem continuamente. Portanto, não se deve esperar o aparecimento de algum Bob Dylan no meio desta geração que não está preocupada com problemas maiores, quer apenas se divertir, já que deve haver alguém que cuide destes problemas seculares todos, por eles.

Musicalmente falando, pouca coisa se acrescentou, ou se tem acrescentado, pois muitas das músicas que têm feito, sucesso não passam de simples regravações de sucessos de grupos de rock surgidos na década passada e que a maioria deste pessoal que frequenta as discotecas não conheceu pois deviam estar ainda no jardim da infância. Tomemos apenas um exemplo como "Don’t Let Me Be Misunderstood" que foi um grande estouro com o Santa Esmeralda este ano. Um jovem que hoje tenha vinte anos, dificilmente, poderia se lembrar da versão dos Animais em 66, pois teria então apenas oito anos. Para evitar estas distorções de informação, a Rádio Excelsior de São Paulo, teve a feliz idéia de apresentar — sempre que houver um caso desses — primeiro um trecho da versão original e depois a versão atual em ritmo de discoteca, para que as pessoas se informem melhor a respeito do que elas estão ouvindo.

Sendo a discoteca uma fórmula musical em que qualquer melodia pode ser perfeitamente encaixada, nada escapa desta máquina de fazer dinheiro, desde os Beatles até clássicos como a Quinta Sinfonia de Beethoven já foram gravados em ritmo de discoteca. O que nos faz crer que se nenhum grande poeta emergir, tampouco surgirão novos compositores que tragam algo de novo aos nossos ouvidos, mesmo que seja para dançar, pois num sistema em que é mais fácil, rápido e lucrativo copiar do que criar o desestimulo é quase que total, pois as portas estão abertas a quem quiser fazer discoteca, fora disso fica meio difícil.

A influência da discoteca em músicos que não são especialistas no gênero tem sido bastante forte, inclusive em músicos brasileiros, pois quem diria, alguns anos atrás, que Belchior, por exemplo, gravaria alguma coisa em ritmo de discoteca; ou ainda que George Benson, um dos mais respeitados músicos de jazz dos Estados Unidos fizesse sucesso em discoteca aconteceu com "On Broadway’? também que os Stones — o maior grupo de rock do mundo

— pintasse com "Miss You~’, com nítidas influências de discoteca? certo também que existe uma diferença de nível bem grande entre o trabalho apresentado por Benson e os Stones e a maioria do que se ouve por ai. Enfim, se o rock na década passada abriu suas fronteiras exatamente por absorver outros gêneros musicais, a discoteca começa a se celebrizar exatamente pelo contrário, ou seja, ela não é influenciada e sim influencia outros artistas que não se tornaram famosos exatamente por interpretarem discoteca.

A discoteca trouxe um novo consumidor em potencial ao mercado, consumidor este até então totalmente esquecido e faixa importante em todo o mundo. Trata-se do negro que, até o advento da discoteca, ficara um tanto quant9 à parte entre o que produzia em termos de música e o que era consumido pela massa, ou seja, música para negros e brancos era totalmente diferenciada no seu geral.

A música de discoteca, em si, é um prolongamento artificializado das bandas e cantores de soul, com um destaque maior para James Brown, o pai do funk, em quem os produtores de discoteca se inspiraram bastante, sem dúvida alguma. A marcação do funk, praticamente a mesma durante a música inteira, mas contendo um forte balanço, fica distanciada da discoteca exatamente neste

ponto, pois o som discoteca praticamente não tem balanço. Tem, isto sim, uma pulsação constante, e embora tenha sido considerada a responsável pela volta do hábito de se sair de casa para dançar, a verdade é que só mesmo em concursos de dança é que se pode observar alguma criatividade na maneira de dançar das pessoas.

De qualquer modo, a realidade é que o negro nunca fez, vendeu e comprou tanto disco como agora.

No Brasil chegou-se inclusive a ter a Black-Rio, agora em franca decadência e totalmente esvaziada da conotaçâo política inicial, que levava milhares de pessoas aos gigantescos sal6es em que eram realizados os bailes chamados black. O som era feito por disc-jóqueis especializados no gosto black e incluíam, além das tradicionais discotecas, algumas músicas mais chegadas ao soul e ao funk, como Charles Wright e James Brown.

Dentro dos saldes chegava-se a ter até 10.000 pessoas, conforme a equipe ou o show ao vivo da promoção. Fora, pouco mais de algumas dezenas de carros atestavam que aquela manifestação era a única maneira dos negros dos subúrbios cariocas se fazerem notar, qualquer coisa como a união faz a força. Em Sâo Paulo, o movimento teve bem menos reflexos e aceitaç5o, talvez devido á descentralização maior da cidade onde não existe uma concentração tão forte de negros como na Zona Norte carioca e talvez também pelo próprio espírito da cidade, pouco convidativo a este tipo de coisa.

O movimento black tem sua maneira de ser totalmente inspirada nas atitudes dos negros americanos que, através de um modo de ser que vai desde o cumprimento da m5o até roupas, cabelos etc., fazem tudo para se diferenciar do tradicional comportamento do branco americano. E, fazendo-se notar através de um visual que, como diriam os surfistas, é chocante, o negro

conseguiu também manter um tipo de agressão fria constante.

Embora, no Brasil, o estilo se mantivesse fiel ao original, não se pode

afirmar que o nível de consciência e de necessidade de afirmação fosse tão profundo pois os níveis de racismo são bem distantes, desde sua origem até o momento em que chegou, além de passarem por processos totalmente diferentes. Da mesma maneira, o movimento punk só ganhou adeptos — a ponto de representar algo rentável no mercado da música — na Inglaterra, pois tratava-se de uma reação da juventude em relação a certas condições de vida que, embora encontrem similares pelo mundo todo, tiveram um processo particularmente crítico somente por lá. No resto do mundo

 

I

As origens do som discoteca, propriamente dito, se localizam na cidade além de Munique, por incr(vel que possa parecer. Foi lá que o produtor Giorgio, que já havia feito muito sucesso com "San Of My Father" e mais recentemente com "From Here To Eternity", começou com Donna Summer, criando para ela uma linguagem toda nova que se caracterizava na batida constante da bateria — mais precisamente bumbo e chimbal — enquanto que uma sessão de violinos atacava ao fundo.

Esta fórmula possibilitou que grupos como o Silver Convention —também de Munique — praticamente eliminassem as letras, fazendo da parte vocal apenas um refrão que repetia constantemente o nome da música, como foi o caso de "Save Me", "Fly Robin Fly" e outras. Ao mesmo tempo em que o Silver Convention faturava muito com o seu estilo, Donna Summer também não ficava por baixo com uma música de Barry Manihow chamada "Could lt Be Magic" e que vinha com letra e tudo. Esta música já havia sido gravada pelo autor, sem muito sucesso, e embora a versão de Donna Summer a tivesse colocada como uma das rainhas da discoteca, o fato é que a fórmula do Silver Convention acabou tendo maior repercussão e efeito, pois a proliferação de gravaç6es neste estilo foi rápida e surpreendente como, por exemplo, Boney M. com Daddy Cool e, mais recentemente, com o Chic com "Dance, Dance, Dance" (Yowsah, Yowsah, Yowsah). Curiosamente, este expediente de simplificar as coisas a um mínimo necessário, seria usado mais tarde por alguns grupos punks, como o Ramones, embora a sua música fosse totalmente diversa desde a sua origem até o seu público.

Pode-se encarar também o sucesso da discoteca justamente por esta universalização de linguagem que quebrou aquela tradicional barreira da língua, pois os termos usados na maioria dos casos ‘love’, ‘dance’, ‘everybody’ e alguns outros, já de há muito fazem parte do vocabulário de qualquer parte do mundo, e não só aqui, como às vezes se imagina.

Ainda em 76, outro nome surgiria com destaque e importância para o movimento discoteca. Seria o lançamento do grupo Ritchie Family com o seu Best Disco ln Town’ que, utilizando pequenos trechos de outras músicas já existentes, acabou criando o primeiro "potpourri" de discoteca, idéia que logo se espalhou com aceitação de toda uma geração que já havia curtido, por exemplo, Beatles e Rolling Stones e agora podia dançá-las sob a nova moda musical. Embora houvessem várias gravaç6es nesse esquema, as que ganharam preferência nas rádios e nas pistas foram o Café Creme com músicas dos Beatles e Nadine Expert com músicas dos Stones.

Esta gravação do Ritchie Family ainda surtiria outros efeitos, pois era a primeira vez que um elepê de discoteca ocupava um lado inteiro do disco, fazendo com que a Salsoul — a gravadora a que eles pertenciam — lançasse a idéia do disco-mix, que se resumia em "esticar" uma música que tradicionalmente contava com 4 ou 5 minutos para uma duração maior, utilizando-se para isso do lado inteiro do disco que tinha o tamanho de um elepê normal mas continha apenas uma música de cada lado em 45 r.p.m. o que possibilitava, inclusive, e principalmente, um ganho muito maior na qualidade de som, O disco-mix, normalmente só disponível para disc jóqueis e rádios, é um produto típico da indústria da discoteca, como de resto ela mudaria ainda muitos hábitos.

No Brasil, a primeira gravadora a lançar um disco-mix foi a RCA com o Bonney M. cantando "Ma Baker", vindo depois impresso em vinil verde, o que sem dúvida, aumentava em muito o impacto do produto, para todos que dele se utilizavam. Depois da RCA, foi a vez da WEA lançar um disco-mix, mas com a inovação de trazer dois artistas nacionais, de um lado Frenéticas com Dancm’ Days" e, do outro, Ney Matogrosso interpretando "Não Existe Pecado Ao Sul do Equador", de autoria de nada menos que Chico Buarque e Rui Guerra.

O Chico — quem diria — chegava também às discotecas.

O pout-pourri de discoteca só ganharia sua primeira gravação com as Harmony-Cats, que fizeram muito sucesso, principalmente pelo apoio maciço que sua gravadora tem de um conhecido canal de televisão, o que, em absoluto, não lhes tira o mérito.

Outros nomes que iriam surgindo com uma certa assiduidade nas discotecas — já que a grande maioria se resumia a um único disco e depois simplesmente desaparecia — foram Thelma Houston, com "Don’t Leave This Way"; Andrea True Connection conhecida por "More, More, More" — bem ao estilo do Silver Convention — e depois com "What’s Vour Name What’s Your Number"; o Ritchie Family com "Brazil"; e Barry White que, como seu "Love Unlimited’, conseguiu muito sucesso com "Love’s Theme", também pelo fato de ser tema de novela.

Dentro deste meio, surgiria ainda Grace Jones, que acabou se celebrizando como figura permanente da Studio 54, a mais famosa das discotecas de Nova lorque e, portanto, do mundo. Grace Jones, além de seu estilo, tem ainda um estilo visual muito particular .

O que se pode notar, até aqui, é uma predominância quase que total das mulheres no gênero discoteca, o que contraria bastante a tendência que dava aos homens uma preferência maior, como acontecia no rock, quando as figuras de Beatles, Stones, Elton John e Peter Frampton descartavam qualquer possibilidade de uma predominância feminina.

Ai surge outra característica da música de discoteca. Embora ela tivesse alguns nomes de destaque como os que já foram citados e como os que irão ainda surgir, a verdade é que, com raras exceções — e uma delas é o grupo Bee Gees de conhecidas origens no rock —,

a maioria deste pessoal jamais chegou a se celebrizar como grandes ídolos. Tampouco como grandes estouros de vendagem —embora sua predominância nas programaç6es das rádios fosse maciça — já que a música de discoteca do mesmo modo que ganhava uma rápida badalação em torno de si também se vai rápido e quase nunca deixa qualquer vestígio, como por exemplo "Rumours’ do Fleetwood Mac que ficou quase um ano no primeiro posto das paradas americanas, embora seja do mesmo modo inegável a influência que a discoteca teve no som do Fleetwcod Mac, e do qual a gente fala adiante, bem como de Saturday Night Fever, um fenômeno à parte.

Ainda há pouco tempo do anonimato, para ser uma das atraç6es das discotecas, está a figura do discotecário, responsável em grande parte pelo sucesso ou não das casas. Os discotecários, ou dee-jays como preferem ser chamados, começaram a ter uma importância maior no momento em que se tornou imprescindível ter uma seqüência nas músicas, mas de uma maneira mais criativa do que o simples rolar de uma fita. Para o dee-jay, é preciso ter sensibilidade na mixagem, ou seja, o momento em que deve entrar outra música sem que o público na pista sinta qualquer quebra de ritmo, muitas vezes fatal à carreira de qualquer um, pois o discotecário, da mesma maneira que tem de saber como e com que música tirar as pessoas das mesas, também deve ter a ciência de dar a elas um descanso, hora em que se consome nas mesas ou nos balcões, pois quem não tem mesa pode ficar de arquibancada mesmo.

Um discotecário, hoje, tem ganhos bastante consideráveis já que de certa forma é praticamente impossível a uma discoteca sobreviver se não tiver um deejay de categoria e de preferência com algum carisma. Alguns como Amandio —do Sótão — são figuras indispensáveis à imagem da casa, e são por si só uma atração à parte.

Por isso recebeu uma homenagem especial na festa da entrega do Disco de Ouro aos melhores disc-jóqueis — um termo criado pelo extinto WEA Informa

— de 77. A festa, realizada em julho deste ano no Papagaio do Rio, foi um momento de único em uma classe onde a concorrência não permite maiores confraternizações.

Os doze premiados foram: Amandio do Sótão, Robertinho do Papagaio/ SP, Carlos Alberto — Banana Power, Claudinho da Looking Glass, Adilson da Maria Fumaça de Salvador, Pierre do Ta Matete/SP, Ricardo Lamounier da New York City/Rio, Lio do Privê/Rio, Dodô ex-Papagaio/Rio, Monsieur Lima, como hours-concours, por ser também um dos pioneiros no ramo, Lula ex-New York/Rio e Didi, atualmente no Hippopotamus.

A única exceção feminina no meio é Sônia Abreu, que era uma das atrações do Papagaio/SP, inclusive com as suas matinês nas quais era absoluta. As matinês destinavam-se aos menores de 18 anos e não se serviam bebidas alcoólicas de modo algum, o que não diminuía em nada o ritmo da garotada que mantinha a pista constantemente cheia e dançava com uma disposição bem maior que o pessoal da sessão noturna.

Ricardo Amaral,o empresário mais bem sucedido com discotecas; Amandio recebeu o disco de ouro entregue por Leiloca das Frenéticas; Monsieur Lima um dos pioneiros nas discotecas, foi hors-concours; Robertinho e Ademir,

van Homero — Produtor e Locutor da Rádio Cidade/Rio — "Eu acho que o movimento discoteca, a cada dia que passa, está melhorando, O pessoal finalmente está tomando conhecimento — não da discoteca em si, que sempre foi conhecida — mas sim do trabalho do discotecário que, finalmente, está sendo reconhecido. A entrega do disco de outro da Warner foi muito boa neste sentido porque o público pôde conhecer mais de perto os discotecários e ver que eles não são nenhum bicho-de-sete-cabeças, mas sim aquelas pessoas que trabalham lá em cima e que gastam a noite deles fazendo com que todos se divirtam um pouco. Agora, o movimento em si eu adio que ainda dura bastante, pois há uma diferença bem grande entre este som discotheque e o antigo som de boate. O som discotheque é mais leve e mais alegre, o som de boate era algo mais pesado, e atualmente o que todo mundo precisa é isso: pegar um fim-de-semana numa discoteca, passar quatro horas lá dentro, se acabar e no dia seguinte está tudo novo, pra recomeçar. O som discotheque já está começando a sofrer uma transformação, você já sente um pouquinho de funk entrando na discoteca, mas esta fórmula ainda dá pra aguentar mais um tempo. Eu, por mim, preferiria que continuasse como está, porque inclusive é mais fácil para dançar, é bem menos complicado que o funk, pois com aquela batida certinha o pessoal dança muito mais fácil e mesmo se a coisa cair um pouco para o lado do funk e do soul eu acho que não tem problema, desde que a música seja boa para dançar.

Quanto ao hábito de regravar musicas que já foram sucesso, é bom, mas dentro de um certo limite. Você já notou que há uma enxurrada de músicas regravadas, sendo as primeiras ótimas, bem gravadas, bons arranjos e depois o pessoal começa a se perder, qualquer grupo resolve regravar porque já foi sucesso e lança, e o negócio não é esse. Eu acho uma boa regravar, mas desde que se faça um trabalho cuidadoso, e mesmo do ponto de vista de não incentivar as novas composições, não chega a ser problema pois o volume do que é regravado é muito pequeno em relação ao todo, e também para o Público é bom porque todo mundo gosta de escutar o que já conhecia. O que não pode é os grupos quererem sobreviver só de regravações, veja por exemplo o Café Creme que surgiu com músicas dos BeatIes, depois gravou deles também só as lentas e parou por aí, não fez mais nada."

Ao vivo

"É, realmente, os grupos de discoteca que estiveram no Brasil não foram aquilo que o público esperava. Talvez sejam problemas até de condições, pois é muito difícil você, ao vivo, apresentar exatamente aquilo que é feito dentro de um estúdio de gravação, por causa dos truques de que se dispõe, e sinceramente eu não sei como analisar a reação do público, mas de qualquer maneira é bom, porque se passar um tempo só tocando músicas em rádio mas sem ninguém se apresentando por aqui, a coisa tenda a perder um pouco da força e acabar mais rápido. Existe também o problema de se trazer grupos e algum cantores que só tiveram uma música estourada para apresentar e o resto do show ninguém nunca ouviu. ARoberta Kelly é um caso. Em função de um sucesso resolve-se fazer uma viagem até aqui, que também é o auge, pois após isso, até logo. O ideal seria trazer apenas os bons grupos, mas ai’ já fica mais difícil. O Chic, que pintou por ai’, já tem pelo menos dois sucessos super consagrados para apresentar."

 

"De certa forma é bom que não existam grandes nomes, grandes (dois, pois isto permite uma elasticidade no estilo musical. Você não fica preso, pois o rock é muito mais enraizado. Existem aqueles grupos que defendem um lado do rock enquanto outros defendem outro tipo. Já é uma estrutura muito antiga com aqueles nomes já estabelecidos que forçam um caminho, então de repente vem outro pessoal que leva a coisa para outro lado, para o caminho antigo. Já o discotheque não, você tem vários grupos, nenhum deles é maior, todo mundo é bom e isso permite que surjam sempre novos nomes, pois se você vai concorrer com grandes nomes, fica-se inibido, agora quando todo mundo gosta de todos, fica tudo mais fácil para gente nova, lançando novas idéias. E por causa dessa flexibilidade é que a discoteca deve durar bastante"

Com shows apresentando gente nova, e todo aquele estilo da casa bem informal com arquibancada, pra pessoal que curte mesmo. Ai fizemos o primeiro Dancin’ no shopping da Gávea, mas com um contrato só de três meses, porque os donos do empreendimento queriam promovera shopping por ser meio longe etc. Quando acabou o contrato, fechamos a casa no auge, toda mundo falando, então passamos a procurar um local novo, mas não achávamos de jeito nenhum, ai o Nelsínho falou: outro Dancin’ acho que só no Pão-de-Açúcar, e eu disse, por que não? Aí aconteceu o Dancin’ de novo.

Sobre a discoteca em si, é a que aconteceu em 78, o rock já teve o seu período, depois houve um intervalo e ai aconteceu a discoteca, que deve ser encarada coma um ritmo que tomou conta do mercado fonográfico e das pessoas. Acontece que rock vinha revestida de toda uma coisa de comportamento de coisa proibida, musicalmente reconhecido e a discoteca não, ela é de nível popular mesmo, parece que feita quase que como uma produção em massa, então, pra ela não ter esse valor artístico, as pessoas caem de malho em cima. Nos Estados Unidos a discoteca * uma coisa muito forte, a nível de comportamento, de consumo e que já está se estendendo para cá também. No Dancin’ chega-se a ter duas mil e oitocentas pessoas aos sábados que estão ali para dançar, e esse fenômeno tem a ver com o período anterior quando o rock, em outra fase. Já não proporcionava mais a oportunidade de as pessoas dançarem, a discoteca então foi quase como um desabafo. Acontece que rock é muito importante a nível de cabeça, porque ele vinha revestido de uma filosofia, tinha uma idéia atrás dele, de mudança na sociedade, de uma coisa mais bonita. Na discoteca a coisa já é mais forte ao nível do corpo, hoje em dia qualquer pessoa pode dançar, é como uma liberação do corpo. Agora, é engano pensar que o povo todo esteja curtindo discoteca, a massa demora muito a assimilar mudanças, mesmo através da televisão, porque a verdade é que eles só veem, mas não têm acesso. Intelectualmente falando eu não acredito que a discoteca funcione como um anestesiante, um desestimulante, pois ela simplesmente funciona como um local de diver

são, em meio à rotina de cada um. O que pode haver é a saturação do ritmo, mas a indústria fonográfica está atenta a isso, a passíveis modificações. É por isso que não dá para falar em discoteca como um movimento, ela é uma coisa criada, mas sem um marco, uma bandeira, é só uma música para dançar. É interessante observar que, no Brasil, já existem (A discoteca como as Frenéticas, enquanto que, nos Estados Unidos, não existe ninguém, a não ser o Travolta que não é especificamente um nome de discoteca, a não ser nesse filme. A indústria tentou mas não há ninguém, embora o Travolta seja um produto bem sucedido, pois a última vez que eu vi essa manifestação toda da garotada em relação a alguém foi com os Beatles. A discoteca, hoje, representa para essa garotada a mesma coisa que o bailinho representou para nós na década passada, com todos os seus modismos e consumos, só que hoje há bem mais liberdade. Outra diferença a ser lembrada entre a discoteca nacional e o que se faz lá fora, é que em termos de letra a nossa é muito mais atuante, tem algum conteúdo, enquanto que o que se faz lá fora, normalmente não acrescenta nada, é o nada pelo nada, reflexo de um comportamento americano, pois eles são muito fúteis, eles consomem o que pintar. Existe, apenas em São Paulo, aquela camada de jovens executivos que consome tudo a fundo da mesma maneira. No Rio já não existe este tipo de consumidor. Deturpação musical? Não acredito. A gente passou por dez anos de Nat King Cole, mais dez de Frank Sinatra e ninguén nunca falou em termos de deturpação, do que aconteceria depois, ninguém se preocupou com isso. Também não acredito em alienação cultural, o levem consumidor que compra discoteca1 também vai a cinema, teatro, enfim, é a massa consumidora que quer ver tudo e comprar tudo. Você vai ver isso quando o Yes vier aí e lotar o Maracanãzinho."