Anos 70, o rock 'made in Brasil"

Os anos setenta foram marcados pelas bandas e intérpretes "made in Brazil", que afirmaram definitivamente a identidade do rock nacional, compondo e cantando em português e, também, ampliando o domínio da técnica, dos equipamentos e dos estúdios. Além disso, foi a década que também introduziu no país os grandes shows, tanto em casas de espetáculos, ginásios e, de forma especial, ao ar livre, que mobilizaram milhares de jovens em todas regiões. É nesta década também que o rock brasileiro passa a atingir o grande público, antes feito limitado a Roberto Carlos, com a venda de mais de 1 milhão de discos do grupo Secos & Molhados, que tinha Nei Matogrosso à frente.

Iluminados pelo exemplo dos Mutantes, dezenas de grupos desdobraram-se em variadas experiências - do rock visceral do Made In Brazil, ao progressivo do Módulo 1000, passando pela psicodelia barroca de A Barca do Sol, pelo rock rural do Ruy Maurity Trio ou pela mistura de progressivo/erudito/música regional do grupo O Terço, entre outros. Destacaram-se ainda, os grupos como O Peso, Bixo da Seda, Arnaldo (Baptista) & Patrulha do Espaço, e Sá, Rodrix & Guarabira, que produziram clássicos álbuns e canções. E bandas completamente obscuras, mas de grande qualidade, como os cariocas Spectrum, autores do disco Geração Bendita, trilha do filme homônimo e clássico da psicodelia universal, além de Bango, Soma, Os Lobos, o gaúcho Utopia e muitos outros.

Em meados da década, prevaleceu o som progressivo, que teve à frente os Mutantes, então apenas com o guitarrista Sérgio Dias da formação original, e outros grupos como os veteranos A Bolha, Som Nosso de Cada Dia, do ex-Incríveis Manito, e os legendários Veludo e Vímana. Um dos maiores eventos do período foi o show Banana Progressiva, realizado no final de maio de 1975, em São Paulo, reunindo os principais grupos de rock da época, com destaque para Vímana, Veludo, A Bolha, Barca do Sol e Erasmo Carlos & Companhia Paulista de Rock. Abrigando um grande número desses grupos, a gravadora Continental, com produção de Pena Schmidt, fez história nos anos setenta como o principal selo roqueiro do país, fato ainda hoje sem o merecido reconhecimento.

O principal feito da década, no entanto, é o surgimento do cantor e compositor Raul Seixas, que depois de liderar o grupo Raulzito e Os Panteras, em meados dos anos sessenta, com quem gravou um lp, e produzir inúmeros artistas para a CBS, entre eles Jerry Adriani, transformou-se no maior roqueiro do Brasil, com sua colagem universal de Elvis Presley/John Lennon/Luiz Gonzaga. Aparecendo na televisão vestido de couro preto e cantando Let Me Sing Let Me Sing, ele abriu as portas para uma carreira que desenvolveu-se até o final dos anos oitenta, quando morreu deixando uma das mais criativas obras musicais e poéticas da história da música brasileira. Músicas como Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, Como Vovó Já Dizia e Maluco Beleza, entre centenas de outras, transcenderam a linguagem do rock, conquistando ouvintes e fãs de todas as gerações.

Também no início da década, ganhou terreno o que se convenciou chamar de rock rural, que misturou as sonoridades do rock com a música folclórica de diversas regiões do país. Destacaram-se neste movimento grupos como Sá, Rodrix & Guarabira, Ruy Maurity Trio, O Terço, Almôndegas (no Rio Grande do Sul), Banda de Pau e Corda e, de certa forma, outros mais ligados à música tradicional como Quinteto Violado. O grupo Os Novos Baianos, especialmente com o disco Acabou Chorare, fundindo samba com rock e Jacob do Bandolin com Jimi Hendrix, também realizou o mais profundo mix sonora daquela geração, deixando sua marca em músicas como Preta Pretinha, O Samba da Minha Terra e Besta é Tu. Intérpretes como Walter Franco, Jards Macalé, Lô Borges, Tim Maia, Hildon e Beto Guedes, entre outros, também contribuiram para reduzir as distâncias entre o rock e pop nacional, abrindo o caminho para a nova geração dos anos oitenta.

Ainda nos setenta, é importante destacar a "invasão" nordestina que marcou definitivamente a música jovem brasileira, iniciada com a gravação do primeiro disco da leva - Alceu Valença & Geraldo Azevedo, em 1972, e que explodiu com o disco Vivo de Alceu e o hit Avohay, de Zé Ramalho, especialmente. Mas, antes disso, o clássico álbum duplo Paêbirú - O Caminho do Sol, de Lula Côrtes & Zé Ramalho, gravado em 1975, em Pernambuco, pelo selo Rozemblit, consolidou a fusão do rock, em particular da psicodelia, com as sonoridades regionais nordestinas. Depois disso, a partir da segunda metade da década, artistas como Ednardo, o grupo Ave Sangria - que lançou um único e excepcional disco, Robertinho de Recife, Belchior e dezenas de outros deixaram a marca musical e poética da região na música nacional.

Outro marco da década de setenta foi a existência da mais importante publicação sobre o rock já editada no país, o jornal Rolling Stone - espécie de versão nacional do original americano, que durou apenas um ano (1972). Sob o comando de Luis Carlos Maciel, e contando com a participação de Ezequiel Neves, Joel Macedo e o desenhista Lapi, entre outros, a publicação revolucionou a linguagem da imprensa musical brasileira, praticamente inexistente. Em suas páginas circularam artigos, debates, entrevistas sobre os mais variados assuntos e informações sobre os grandes artistas do rock internacional e nacional daquele momento.