Caetano Veloso
Parte-1/2

 
Tigresa
Intr: Bm
Bm            Em              Bm        G
Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
  Bm    Em     A7   D                  E
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
      Bm               E                    Bm            F#m
Esfregando sua pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
      G              A7            Bm
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta, sem certeza, tudo que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e setenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancing Days
Ela me conta que era atriz e trabalhou no "Hair"
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que um leão
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri para o violão, num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento


Sampa

Intr: Dm  G5+/7  G7  C  G5+/7
C                  Bm5-/7    E7     Am   Am7M   Am7    C7
Alguma coisa acontece no meu coração
     F                     A7                       Dm
Que só quando cruza a Ipiranga com a avenida São João
       G7                      G#°              Am
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
    D7/9
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
                                    Dm      G7
Da deselegância discreta de tuas meninas
 C                    C7             F7M                F#°
Ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução
C/G      A5+/7     Dm     G7/6     E7    A5+/7
Alguma coisa acontece no meu coração
     Dm                  G5+/7        G7         C      G5+/7
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo, afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas e campos e espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Panaméricas de áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E os novos baianos te podem curtir numa boa


Alegria, Alegria

Intr: D  G  B7
       E              A                 B7         E
Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento
                    A          D    B7
No sol de quase dezembro, eu vou
E                     A             B7         E
O sol se reparte em crimes, espaçonaves, guerrilhas
                  A         D    B7   E
Em Cardinales bonitas, eu vou
           A  B7    E                  A  B7    A  E
Em caras de presidentes, em grandes beijos de amor
             A   B7  A   E                A  B7  A   C#m7
Em dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigite Bardot
                 F#m   C#m7                 F#      C#m7
O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça
                 B7
Quem lê tanta notícia
D   A                     D               E7       A
Eu vou por entre fotos e nomes os olhos cheios de cores
                   D      G
O peito cheio de amores vãos
B7   E           A            E
Eu vou, por que não? Por que não?
                    A                  B7          E
Ela pensa em casamento, e eu nunca mais fui à escola
                       A        D   B7
Sem lenço, sem documento, eu vou
E                   A              B7        E
Eu tomo uma coca-cola, ela pensa em casamento
                       A       D    E7
E uma canção me consola, eu vou
E         A  B7  A  E           A  B7  A    E
Por entre fotos e nomes, sem livros e sem fuzil
             A  B7 A  E          A  B7   A  C#m7
Sem fone e sem telefone no coração do Brasil
                F#    C#m7              F#   C#m7
Ela nem sabe, até pensei em cantar na televisão
              B7
O sol é tão bonito
D   A                         D             E7             A
Eu vou sem lenço, sem documento, nada no bolso ou nas mãos
                   D       G     B7
Eu quero seguir vivendo, amor
     E           A            E
Eu vou, por que não? Por que não?
         E            A             E
Por que não? Por que não? Por que não?


London, London

Intr: D  A/C#  Bm  A
    D                    A                 D
I'm wondering round and round, nowhere to go
    G               A                D
I'm lonely in London, London, is lovely so
   G                    A              D             Bm
I cross the streets without fear, everybody keeps the way clear
   G            A                  D
I know there's no one here to say hello
I know they keep the way clear, I am lonely in London without fear
I'm wondering round and round, nowhere to go
           G      A                G       A       D
While my eyes, go looking for flying soucers in the sky
But my eyes, go looking for flying soucers in the sky
Oh, Sunday, Monday, Autumn pass by me
And people hurry on so peacefully
A group approach the policeman, he seems so pleased to please them
It's good to live at least and I agree
He seemed so pleased at least and it's so good to live in peace
And Sunday, Monday years and I agree
REFRÃO
I choose no face to look at, choose no way
I just happen to be here and it's ok
Green grass, blue eyes, gray sky, God bless, silent, pain and happiness
I came around to say yes, and I say
Green grass, blue eyes, gray sky, God bless, silent, pain and happiness
I came around to say yes, and I say
REFRÃO


Partido Alto

E        A           E   A                   E  A                E             A
Diz que deu, diz que dá,     diz que Deus dará,    não vou duvidar, ô nega
                E   A                    G#7    C#m      A                    E
E se Deus não dá,     como é que vai ficar,   ô nega ?,    Deus dará, Deus dará
Diz que deu, diz que dá, diz que Deus dará, não vou duvidar, ô nega
E se Deus negar, eu vou me indignar e chegar, Deus dará, Deus dará
E
Deus é um cara gozador, adora brincadeira
                      Bm7    E7               A
Pois prá me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro
                        A#°            E
Mas achou muito engraçado me botar cabreiro
     C#m       F#m         B
Na barriga da miséria nasci batuqueiro
E
Eu sou do Rio de Janeiro
Jesus Cristo ainda me paga, um dia ainda me explica
Como é que pôs no mundo essa pobre coisica
Vou correr o mundo afora, dar uma canjica
Que prá ver se alguém me amarra ao ronco da cuíca
E aquele abraço prá quem fica
Deus me deu mão de veludo prá fazer carícia
Deus me deu muita saudade e muita preguiça
Deus me deu perna cumprida e muita malícia
Prá correr atrás da bola e fugir da polícia
Um dia ainda sou notícia
Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio
Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio
Dou paulada a três por quatro e nem me despenteio
Que eu já tô de saco cheio


Você Não Entende Nada

E                     A         C#m    F#m   B7   E           A       E
Quando eu chego em casa nada me  consola,       você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos de cortar  cebola,    você é tão bonita
A                 D       Bm7
Você traz a coca-cola, eu tomo
             E7       A         D        G#m     C#7      F#m
Você bota a mesa, eu como, eu como, eu como, eu como, eu como
   B7      E               A         C#m     F#m     B7
Você não tá entendendo quase nada do que eu digo
E           A       C#m           F#m   B7    E     E7
Eu quero é ir-me embora, eu quero dar    o   fora
    A           B7          E         E7 (1ª vez)
E quero que você venha comigo                           (2x)
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não agüento, você está tão curtida
Eu quero é tocar fogo neste apartamento,      você não acredita
Traz meu café com suita, eu tomo
Bota a sobremesa, eu como, eu como, eu como, eu como, eu como
Você   tem que saber que eu quero é correr mundo, correr perigo
Eu quero é ir-me embora, eu quero é dar   o    fora
E quero que você venha comigo              (2x)


Rapte-me, Camaleoa

A                      G
Rapte-me, camaleoa, adapte-me a uma cama boa
(F#m                          B)
Capte-me uma mensagem à toa
De um quasar pulsando loa
Interestelar canoa
(E                                       D)
Leitos perfeitos, seus peitos direitos me olham assim
Fino menino me inclino pro lado do sim
Rapte-me, adapte-me, capte-me, it's up to me, coração
Sem querer ser merecer ser um camaleão
A                      G                              A       (G     A)
Rapte-me, camaleoa, adapte-me ao seu ne me quitte pas


Trilhos Urbanos

D           E/D       D            E/D   D
O melhor o tempo esconde, longe, muito longe
          E/D      Bm7    E7                    Eb7M    D7M
Mas bem dentro aqui,     quando o bonde dava a volta ali
No cais de Araújo Pinho, tamarindeirinho
Nunca me esqueci onde o imperador fez xixi
F           G         F           G     F
Cana doce Santo Amaro, gosto muito raro
           G      Dm7   G7                    F#7M    F7M
Trago em mim por ti,   e uma estrela sempre a  luzir
Bonde das Trilhos Urbanos vão passando os anos
E eu não ti perdi, meu trabalho é de traduzir
Rua da Matriz ao Conde no trole ou no bonde
Tudo é bom de vê, São Popó do  Maculelê
Mas aquela curva aberta, aquela coisa certa
Não dá prá entender o Apolo e o rio Subaé
Pena de Pavão de Krishna, maravilha, vixe Maria
Mãe de Deus, será que esses olhos são meus ?
Cinema transcendental, Trilhos Urbanos
Gal cantando Balancê, como eu sei me lembrar de você


Felicidade

     G7M          Am7
Felicidade foi se embora
                     D9          G7M
E a saudade no meu peito ainda mora
                    E7          Am7
E é por isso que eu gosto lá de fora
                     D9          G7M
Porque sei que a falsidade não vigora
         G7M                   Am7
A minha casa fica lá de traz do mundo
                      D9
Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar
O pensamento parece uma coisa à toa
Mas como é que a gente voa quando começa a pensar


Luz do Sol

C9         C7         F7M         Bb7/6
Luz do sol, que a folha traga e traduz
Em        A7/6     G#7M                                  G6    C#7    (C7  2ª vez)
Em verde novo, em folha, em graça, em vida, em força, em luz
Céu azul, que vem até onde os pés
Tocam a terra e a terra inspira e exala os seus azuis
F7M             Bb7/6           C9         C7/4    C7
Reza, reza o rio, córrego pro rio, rio pro mar
F7M                Bb7/6                C9
Reza a correnteza, roça, beira, doura a areia
Bm7                           Bb7/6           Am7         Am6
Marcha o homem sobre o chão, leva no coração uma ferida acesa
Dm7               G7/4 G7         C7M              C6/9
Dono do sim e do não   diante da visão da infinita beleza
F#m7                  F7             Em7
Finda por ferir com a mão essa delicadeza
               Em6      D7      C#7M
A coisa mais querida, a glória da vida


Qualquer Coisa

Bm7                     E7
Esse papo já tá qualquer coisa
        A           C#7    F#7
Você já tá prá lá de Marraquesh
Mexe qualquer coisa dentro doida
Já qualquer coisa doida dentro mexe
G7M                                                    F#7
Não se avexe não, baião de dois, deixe de manha, deixe de manha
                                                    G7M
Pois sem essa aranha, sem essa aranha, sem essa aranha
                                                       F#7
Nem a sanha arranha o carro, nem o sarro arranha a Espanha
                                 G7M                   B7M
Nessa tamanha, nessa tamanha, esse papo seu já tá de manhã
C#m       F#7    C#m    F#7
Berro pelo aterro, pelo desterro
B7M         E7M     B7M      D°
Berro por seu berro, pelo seu erro
C#m         F#7      C#m          F#7
Quero que você ganhe, que você me apanhe
G#7
Sou o seu bezerro gritando mamãe
E7M                        Em7
Esse papo seu tá qualquer coisa
                   Bm7
E você tá prá lá de Teerã
          E7
Qualquer coisa...


O Quereres

Intr: ( A  B/A )
A                            B/A                               A
Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
A                            B/A                               F#m
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
                              C°                                   F#m
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
                                  D                 B             A
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão
Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês
F#m                                               D
Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói
Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és
REFRÃO
Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim


Podres Poderes

Intr: A
A
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
B/A
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
D                    E7      F      F#m
E perdem os verdes, somos uns boçais
Queria querer cantar setecentas mil vezes
Como são ricos, como são ricos os burgueses
E os japoneses, mas tudo é muito mais
C                                         E7
Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América Católica
F7M                               Bb7
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, que será, que será, que será, será que esta minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinados com eles
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente, mas tudo é muito mau
Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais
Será que apenas os hermetismos pascoais
E os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede
São tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles de velam pela alegria do mundo
Indo mais fundo, tins e bens e tais, tudo mais fundo, tins e bens e tais


Eclipse Oculto

Intr: (A  E)
E                     A                    E
Nosso amor não deu certo, gargalhadas e lágrimas
    A                   E
De perto fomos quase nada
          Bm                  F#m                  G
Tipo de amor que não pode dar certo na luz da manhã
           F#         F           E
E desperdiçamos os blues do Djavan
Demasiadas palavras, fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia como se o coração tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida
A         E     A       E
Não me queixo, eu não soube te amar
  A        E    A     E
Mas não deixo de querer conquistar
A     F#     F             A           E
Uma coisa qualquer em você, o que será?
Como nunca se mostra o outro lado da lua
Eu desejo viajar do outro lado da sua
Meu coração galinha de leão não quer mais 
amarrar frustração
Ó eclipse oculto na luz do verão
Mas bem que nós fomos muito felizes só durante o 
prelúdio
Gargalhadas e lágrimas até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama nada pintou direito
É, minha cara, falar, não sou proveito sou pura 
fama
REFRÃO
Nada tem que dar certo, nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio, atrasado e aflito
E paramos no meio sem saber os desejos aonde 
é que iam dar
E aquele projeto ainda estará no ar?
Não quero que você fique fera comigo
Quero ser seu amor, quero ser seu amigo
Quero que tudo saia como som de Tim Maia, sem 
grilos de mim
Sem desespero, sem tédio, sem fim


 

 

O Leãozinho

Intr: C  C7M
(C  C7M)           G
Gosto muito de te ver, leãozinho
Am                 Em
Caminhando sob o sol
F7M                Bb        (C  C7M)
Gosto muito de você, leãozinho
Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho
Am             Ab             C/G   F#m5-/7
Um filhote de leão, raio da manhã
F7M                  Em            Dm   G7
Arrastando o meu olhar como um imã
Am                 Ab              C/G    F#m5-/7
O meu coração é o sol, pai de toda cor
F7M                    Em      Dm    G7
Quando ele lhe doura a pele ao léu
Gosto de te ver ao sol, leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar numa